Travessias
Travessias é um projeto em desenvolvimento, que tem como base de investigação as relações dos laços familiares que se transformam com o tempo e a distância. A pesquisa com base nos conceitos de origem/tradição dentro do âmbito familiar se iniciaram no meu projeto anterior, Utaki , ao investigar a figura da mãe, do pai, da casa e da minha própria pessoa. Agora o trabalho se desloca para fora do núcleo duro de intimidade e incorpora outros membros da família, explorando os territórios físicos e simbólicos que eles podem vir a ocupar.
Além do aprofundamento na investigação de memória e ancestralidade, Travessias amplia o olhar para questões como identidade, sexualidade e descobertas. A ideia de identidade, que possui um caráter transitório, passa a ser observada na circulação entre espaços, nas distâncias e nos encontros que moldam o (não)pertencimento. Há algum tempo iniciei uma aproximação mais íntima dentro de uma geração mais nova em minha família, percebendo assim, alteridades, ecos e contrastes entre experiências, desejos e expectativas. Esse processo gera um espelhamento, no qual questiono minha própria trajetória ao observar caminhos sendo traçados por outros à minha frente.
Mesmo saindo do ambiente íntimo familiar, as bases da pesquisa permanecem e continuo a explorar as minhas próprias questões identitárias através de reconhecimentos e estranhamentos. Como pertencemos a um lugar quando estamos em movimento? Como rituais e gestos se adaptam ao longo das gerações?
A travessia, aqui, é entendida como um movimento duplo: por um lado, é a passagem de um lugar para outro, de uma fase da vida para a seguinte, com todas as suas incertezas, descobertas e reinvenções; e por outro, é a minha própria jornada como indivíduo, que deixa o espaço íntimo da casa familiar para me conectar com outras gerações e histórias. A fotografia, nesse contexto, funciona como uma ferramenta de conexão entre eu e os personagens, ponte entre o visível e o invisível, o individual e o coletivo, o que foi e o que está por vir.